Interpretação de Resultados

Como interpretar os resultados do questionário HSE-IT: tabela de referência e classificação de risco

Você aplicou o questionário HSE-IT e tem as respostas em mãos. Este guia explica como transformar essas respostas em classificação de risco por setor, usando os valores de referência publicados pelo HSE britânico, e o que fazer com cada resultado.

Como o escore de cada dimensão é calculado

Cada trabalhador responde as 35 questões em uma escala Likert de 1 a 5. As questões pertencem a 7 dimensões: Demandas, Controle, Apoio da Gestão, Apoio dos Colegas, Relacionamentos, Papel e Mudança. O escore de uma dimensão é a média das respostas de todos os trabalhadores do setor nas questões daquela dimensão.

Um detalhe técnico que costuma passar despercebido: as dimensões não apontam todas para o mesmo lado. Em Controle, Apoio da Gestão, Apoio dos Colegas, Papel e Mudança, escore alto significa condição boa de trabalho. Em Demandas e Relacionamentos, as questões são formuladas de modo negativo ("tenho prazos impossíveis", "sofro perseguição no trabalho"), então escore alto significa condição ruim. Quem tabula à mão precisa tratar essas duas dimensões com a lógica invertida, e é nesse ponto que a maioria das planilhas erra.

A tabela de referência do HSE

O escore médio de um setor, sozinho, não diz se a situação é boa ou ruim. A interpretação vem da comparação com os valores de referência publicados na análise psicométrica do instrumento (Edwards e Webster), construída com dados de mais de 26 mil trabalhadores de organizações públicas e privadas do Reino Unido. São esses valores que a literatura chama de benchmarks.

A lógica da classificação usa percentis. Um setor no percentil 80 ou acima tem condições melhores que a grande maioria das organizações da amostra de referência: é um resultado a manter. Um setor no percentil 20 ou abaixo está entre os piores: é um resultado que pede ação. Entre os dois fica a faixa intermediária, que merece investigação.

Tabela de referência por dimensão (escala 1 a 5)

Dimensão Risco baixo Risco médio Risco alto
Demandas ≤ 2,82 2,82 – 3,06 ≥ 3,06
Controle ≥ 3,68 3,19 – 3,68 ≤ 3,19
Apoio da Gestão ≥ 3,62 3,32 – 3,62 ≤ 3,32
Apoio dos Colegas ≥ 3,90 3,70 – 3,90 ≤ 3,70
Relacionamentos ≤ 1,99 1,99 – 2,33 ≥ 2,33
Papel ≥ 4,28 4,08 – 4,28 ≤ 4,08
Mudança ≥ 3,23 2,78 – 3,23 ≤ 2,78

Valores derivados dos percentis 20 e 80 da análise de Edwards e Webster, convertidos para a escala bruta de respostas (1 a 5), com a direção ajustada nas dimensões de formulação negativa. Esta é a mesma tabela aplicada pelo PGR Psicossocial na classificação automática.

O que fazer com cada faixa

O HSE trabalha com a ideia de que a classificação serve para priorizar, não para rotular. Na prática, cada cor pede uma postura diferente:

Verde (risco baixo): o setor está no grupo das melhores condições da referência. O trabalho aqui é de manutenção: registrar no inventário de riscos que o fator foi avaliado e manter as práticas que produziram o resultado.

Amarelo (risco médio): a condição não é crítica, mas há espaço claro de melhoria. É a faixa que mais se beneficia de uma conversa estruturada com os trabalhadores, como os grupos de escuta do método HSE, para entender as causas antes de definir medidas.

Vermelho (risco alto): o setor está entre os piores da referência naquela dimensão. O resultado pede medidas de prevenção no plano de ação, com prazo e responsável definidos. Em uma fiscalização, é exatamente para esse tipo de achado que o auditor-fiscal espera encontrar ações correspondentes no PGR.

Exemplo prático

Imagine o setor de produção de uma metalúrgica com 18 respondentes. A média em Demandas ficou em 3,40. Como Demandas tem formulação negativa, quanto maior o escore, pior a condição, e 3,40 está acima do limite de risco alto da tabela: classificação vermelha. Já em Controle a média foi 3,75, acima do limite verde: condição a manter. O retrato que emerge é clássico na indústria, alta exigência com autonomia razoável, e o plano de ação deve atacar a dimensão vermelha primeiro.

Os 4 erros mais comuns de interpretação

1. Ler a média como diagnóstico individual

A própria análise de Edwards e Webster alerta: uma organização pode estar bem na média e ainda assim ter um grupo de trabalhadores em condição ruim. O HSE-IT é um instrumento de gestão coletiva de riscos. Ele indica onde investigar, não fecha diagnóstico de ninguém.

2. Ignorar a adesão

Uma média calculada com 4 respostas em um setor de 40 pessoas não representa o setor. O HSE recomenda buscar a maior participação possível, e a prática consolidada é trabalhar com pelo menos 70% de respostas por setor antes de classificar.

3. Classificar setores muito pequenos

Com menos de 5 respondentes, além da fragilidade estatística, há risco de quebra de anonimato: em um setor de 3 pessoas, é fácil deduzir quem respondeu o quê. Nesses casos, o caminho é agrupar setores semelhantes em um mesmo GHE antes da análise.

4. Esquecer a direção das dimensões

O erro de planilha mais frequente: aplicar a régua "quanto maior, melhor" às 7 dimensões. Em Demandas e Relacionamentos a lógica é inversa, e uma tabulação que ignora isso classifica exatamente errado os dois fatores mais associados a sobrecarga e assédio.

Do resultado ao PGR

A classificação por dimensão e por setor é o insumo central do conteúdo psicossocial do PGR: ela entra no inventário de riscos como avaliação de cada fator por GHE, e as dimensões em amarelo e vermelho geram itens no plano de ação, no formato 5W2H. O modelo de PGR com riscos psicossociais mostra como o resultado se encaixa na estrutura do documento. Para ver a classificação aplicada em um documento completo, consulte o exemplo comentado do relatório de avaliação psicossocial, que percorre as seis seções do relatório gerado.

Classificação automática, com esta mesma tabela de referência

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Perguntas frequentes

Posso usar outros valores de referência?

Os valores de Edwards e Webster são os de maior base amostral publicada para o HSE-IT. Não existe, até hoje, uma tabela normativa brasileira com amostra comparável publicada. Usar a referência internacional com transparência metodológica é a prática defensável: o importante é documentar no PGR qual referência foi usada.

Um setor verde dispensa ação?

Dispensa medidas corretivas, mas não dispensa registro. O inventário de riscos deve documentar que o fator foi avaliado e qual foi o resultado. A NR-1 também exige reavaliação periódica, então o setor verde de hoje volta a ser medido no próximo ciclo.

E quando um setor dá vermelho em várias dimensões?

Priorize pela combinação de severidade e viabilidade. O modelo Demanda-Controle sugere começar onde demanda alta encontra controle baixo, porque é a combinação de maior risco. Grupos de escuta com os trabalhadores do setor ajudam a separar causa de sintoma antes de definir as medidas.

A classificação substitui o responsável técnico?

Não. A tabela padroniza a leitura dos escores, mas a avaliação de riscos do PGR é responsabilidade do profissional de SST, que conhece o contexto da empresa. A classificação automática economiza a tabulação, não o julgamento técnico.

Referências

Health and Safety Executive. Management Standards Indicator Tool e manual do usuário. Disponíveis em hse.gov.uk.
Edwards, J. A.; Webster, S. Psychometric analysis of the UK Health and Safety Executive's Management Standards work-related stress Indicator Tool.
Lucca, S. R.; Sobral, R. C. Aplicação de instrumento para o diagnóstico dos fatores de risco psicossociais nas organizações. Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, v. 15, n. 1, p. 63-72, 2017. DOI 10.5327/Z1679443520176045.